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Entrevistas

Desenvolvimento Regional e o Papel das Universidades

 

Doutora em economia Tânia Bacelar de Araújo, em 23/02/2015.

Tema da Aula Magna realizada na UESC e desta entrevista concedida a Ascom pela professora Tânia Bacelar de Araújo, especializada em planejamento e desenvolvimento regional e local, conjuntura econômica, planejamento estratégico, cenários socioeconômicos e finanças e políticas públicas; economista e socióloga; doutora em economia pela Universidade de Paris I. Atualmente trabalha como professora na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Entre suas publicações, destaca-se o livro Ensaios sobre o Desenvolvimento Brasileiro: heranças e urgências.

 

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ASCOM – Professora, a Sra. poderia citar alguns dos principais entraves que dificultam o desenvolvimento regional no País?

Tânia Bacelar de Araújo - Eu trabalho com a visão de que o Brasil tem um grande potencial quando a gente olha pela dimensão regional e um grande problema. O grande potencial é a diversidade regional do país. É um país continental, a diversidade começa pela natureza. Nós temos seis biomas no Brasil. Poucos países do mundo têm tal riqueza natural. Em cima dessa diversidade ambiental, nós construímos um processo de ocupação humana e econômica que gerou, também, uma maravilhosa diversidade socioeconômica e cultural que faz do Brasil um mosaico de regiões diferenciadas, que na minha visão é um dos principais patrimônios do Brasil. Mas, no processo histórico da nossa formação a gente criou o problema. Qual é o principal problema? Foi no século XX, quando o Brasil passou a ser um país industrial, nós concentramos demais a indústria numa porção muito pequena do território do Brasil. Chegamos em 1970 a ter 80% da indústria, de um país continental, numa única região e quase metade numa única cidade: a grande São Paulo. Essa herança do século XX é um problema porque esse processo concentrou a indústria, mas concentrou também a infraestrutura econômica e concentrou as universidades. As principais universidades do país, os principais centros de pesquisa também estão, muito fortemente, concentrados no sudeste como herança do século XX. Quando nós criamos as nossas Universidades, foi exatamente no século XX. As Universidades são muito recentes no Brasil. A primeira universidade é da década de 30 do século passado. Não temos nem cem anos de universidade; tínhamos escolas isoladas, a Bahia mesmo tinha uma Faculdade de Medicina, famosa, mas as universidades brasileiras são da década de 30 do século passado. Então quando a gente olha para a Europa, a gente vê que eles têm universidades seculares e, mesmo os Estados Unidos, que foi descoberto, digamos assim, mais ou menos, na mesma época que o Brasil, tem universidades muito mais antigas e consolidadas. Mas além de ser recente, o processo de industrialização brasileiro, que foi a grande marca do século XX, ele tem uma característica muito importante. A gente fez uma industrialização muito rápida e importamos a tecnologia industrial. Então tem uma marca importante no desenvolvimento brasileiro que é um certo descolamento entre a dinâmica econômica do país e a dinâmica das universidades. A dinâmica econômica requeria pouco, a dinâmica da pesquisa nas universidades. Com o agravamento de que nós botamos as principais áreas de pesquisa dentro das universidades. Outros países têm grandes centros de pesquisa privados, nós não temos. Nossos grandes centros de pesquisa são públicos e a grande maioria dentro das universidades. Isso traz outra herança importante que é essa dificuldade de diálogo entre a academia e o mundo econômico do país que, para o desenvolvimento regional é uma dificuldade muito grande. A gente precisa aproximar essas duas coisas. Acho que esse é um grande desafio. O grande desafio é aproximar mais as nossas universidades da realidade concreta do país.

ASCOM - Isso regionalmente demandaria tempo não é?

TBA - Demanda tempo porque, no período recente, nós fizemos uma mudança. O século XXI começa um pouco diferente do século XX. A gente conseguiu no século XXI viver uma experiência de desenvolvimento com menos concentração no sudeste tanto do ponto de vista regional como do ponto de vista social. O Brasil do começo do século XXI surpreende o mundo porque a gente monta uma experiência de desenvolvimento com menos concentração de renda. Desenvolvimento com concentração de renda era a marca do Brasil do Século XX. No século XXI, a gente começa a experimentar outra trajetória e, junto com isso, nós fizemos uma mudança importante no sistema universitário. É que a gente empurrou as nossas universidades para o interior. Então, nossas universidades também eram muito concentradas no sudeste e no litoral. No caso do Nordeste as poucas que existiam eram no litoral. Vou dar o exemplo do meu Estado: Pernambuco tinha duas universidades federais, a Federal de Pernambuco - onde eu trabalho - e a Rural de Pernambuco, todas duas no Recife. Hoje nós temos a Univasf, em Petrolina; temos a Federal em Caruaru; a Rural em Garanhuns. Então, isso não aconteceu só no Pernambuco, isso aconteceu no país inteiro e eu acho que essa é uma novidade muito interessante para fazer esse link com o desenvolvimento regional.  Se eu estou dizendo que um dos nossos desafios é aproximar as universidades dos desafios do país, da realidade concreta do país, ter universidades espalhadas no país inteiro é uma grande oportunidade. Então, se a gente começou a levar as universidades para o interior, eu acho que a gente está traçando o bom caminho para esse diálogo com a realidade concreta. Acho que o mais importante é que isso vai possibilitar que o conhecimento que a gente consegue produzir na universidade, ao dialogar com a realidade diversa do país, possa nos ajudar a recuperar o que eu acho que é o potencial. Então, se o problema é a concentração em poucos lugares, o potencial e á diferenciação, é a diversidade, é a riqueza que existe em cada um dos pedacinhos do Brasil. Com mais universidades e mais centros de pesquisa espalhados pelo país eu acho que a gente pode, no século XXI, fazer uma combinação diferente da que a gente fez no século XX e valorizar mais a nossa diversidade regional que é um grande patrimônio.

ASCOM - Existe ainda uma dificuldade, mesmo nesse quadro que a Sra. pontua, existe uma dificuldade que é, exatamente, esse dialogo entre os centros de pesquisa acadêmicos e o segmento econômico. Isso seria o que: uma mudança de mentalidade ou uma mudança da legislação?

TBA - Uma mudança de mentalidade, uma mudança de legislação, uma mudança do jeito da economia se desenvolver. Então veja, se a gente agora não depende mais somente de importar tecnologia industrial, se a gente quer aproveitar o potencial de cada lugar, essa pergunta vem para a universidade: e qual que o potencial de cada lugar? O que é que cada uma pode aportar de conhecimento novo para desenvolver as potencialidades que estão no seu entorno? Essa pergunta hoje nos é feita com muita força, não é? E é um desafio importante para as áreas de pesquisa e extensão, principalmente, de nossas universidades. Com uma responsabilidade muito forte das universidades públicas pelo perfil que eu falei do nosso sistema de pesquisa: nosso sistema de pesquisa é muito concentrado nas universidades públicas diferente dos Estados Unidos, do Japão onde parte da pesquisa não está na mão das universidades públicas. Então aqui a nossa responsabilidade é muito maior.

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