As representações sociais do meio-ambiente: infância e ecossistema nas sociedades tradicionais.

Christiana Cabicieri Profice - Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC/BA

Valéria Amim - Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC/BA

 

Palavras-chave: ecologia humana, comunidades, psicologia do desenvolvimento

 

As reflexões que serão apresentadas se referem às representações sociais das crianças de sociedades tradicionais acerca do meio-ambiente. Este debate tem sido estimulado recentemente pelos confrontos entre ecologistas conservacionistas e ecologistas adeptos do ‘local empowerement”. Os primeiros consideram prioritário o estabelecimento de unidades de conservação ambiental que estejam completamente imunes à presença humana, enquanto que os segundos avaliam que a presença de membros de sociedades tradicionais (como índios, quilombolas, caiçaras, caboclos, seringueiros) nos ecossistemas a serem protegidos seja uma condição sine qua non para o sucesso da preservação da diversidade biológica. Como afirma Albuquerque e col.,

 

uma grande maioria dos projetos conservacionistas desenvolvidos no Brasil, financiados tanto por governos como ONG’s, tem base naquele mito, apregoando UC’s “sustentáveis” onde comunidades “tradicionais” usufruem dos recursos naturais de forma supostamente sustentável e mantendo a biodiversidade local.(Albuquerque e col., 2001, p281).

           

O mito a que se refere o autor é o de um bom selvagem que vive em harmonia com uma natureza imaculada, apontando, desta forma, o caminho mais “natural” para uma relação salutar entre homem e ecossistema. A interação com o meio-ambiente se dá, sob estas condições, a partir das referências culturais de um dado grupo social, caracterizadas pelo respeito à bio-diversidade e aos ciclos naturais. Por sociedades tradicionais podemos distinguir aquelas populações que: mantém ligação intensa com territórios ancestrais, se destacam por uma auto-identificação e identificação pelos outros como grupos culturais distintos, possuem linguagem própria, muitas vezes não a nacional, apresentam instituições políticas próprias e tradicionais e executam sistemas de produção principalmente voltados para a subsistência (Diegues, 1998).

            Ao observarmos as sociedades tradicionais hoje, devemos levar em consideração os processos de transformação, ou de mudança, distanciamentos, iniciativas ou transgressões. As relações desses grupos com o mundo contemporâneo que, em virtude de suas transformações aceleradas, chamam o olhar do pesquisador, isto é, sugerem uma reflexão renovada acerca destas comunidades. A idéia de progresso que implicava que o depois pudesse ser explicado em função do antes, não corresponde à realidade atual, principalmente, nas questões que se relacionam ao meio-ambiente.  Resgatar formas antigas e/ou tradicionais de relação com o espaço, com o outro e suas representações, é como falar a nossos contemporâneos do que eles são, mostrando-lhes o que eles não são mais. Pierre Nora afirma que

 

o que estamos buscando na acumulação de testemunhos, documentos, imagens de todos os sinais visíveis daquilo que foi, é nossa diferença e, no espetáculo dessa diferença, o brilho súbito de uma identidade inencontrável. Não mais uma gênese, mas o deciframento de que estamos ã luz do que não somos mais. (apud, Augé, M., 1994, p.25)

 

            É com o intuito de contribuir para esta discussão que foi elaborado um projeto de pesquisa a ser executado em 2004, e que tem, como um de seus objetivos, a tarefa de analisar as representações sociais de duas comunidades (que podem ser classificadas como tradicionais) acerca do meio ambiente. Nesta perspectiva, evocamos a definição de Moscovici (1976) que considera que:

 

As representações sociais são entidades quase tangíveis. Elas circulam, entrecruzam-se e cristalizam-se sem cessar por meio de uma fala, um gesto, um encontro, em nosso universo cotidiano. A maioria das relações sociais estabelecidas, dos objetos produzidos ou consumidos, das comunicações trocadas estão impregnadas delas. Como sabemos, elas correspondem, por um lado, à substância simbólica que entra na elaboração e, por outro, à prática que produz a dita substância, assim como a ciência ou os mitos correspondem a uma prática científica e mítica. (Moscovici in Semin, G. R, p. 207)

 

            A pesquisa em questão pretende avaliar a influência ambiental no processo de socialização infantil, buscando uma compreensão mais ampla do fenômeno em questão. A escassez de investigações neste domínio nos conduz a reflexões acerca do impacto de diferentes ecossistemas no desenvolvimento. O desenvolvimento infantil tem sido, na maioria das vezes, considerado como um processo linear, universal e determinado geneticamente. Propondo uma nova abordagem, nos afastamos da necessidade de utilização da noção de internalização, tão freqüentemente evocada pela psicologia do desenvolvimento para tratar da aquisição de conhecimentos sociais. A apropriação participatória surge como alternativa conceitual, já que pode ser considerada como

 

o processo pelo qual os indivíduos transformam seus entendimentos sobre e a responsabilidade para com as atividades através de suas participações (...) através da participação, as pessoas se modificam e no processo se tornam preparadas para fazer parte de atividades similares subseqüentes (Rogoff, 1998, p132).

 

A partir deste entendimento fica mais claro o modo de transmissão de conhecimento social, incluindo aquele conjunto de saberes a respeito dos indivíduos e grupos na relação com o meio-ambiente. Como destaca Rogoff, “em vez de considerar o processo como de internalização em que algo estático é levado de um limite do externo para o interno, vejo a própria participação ativa de crianças como sendo o processo pelo qual elas obtém facilidade em uma atividade.” (Idem,p132). Nesta compreensão o mundo social não é algo externo ao sujeito mas sim o próprio meio no qual este último se constrói. Se objetivamos compreender como os sujeitos se relacionam com o meio-ambiente e se pretendemos elaborar estratégias de conscientização ambiental devemos ter clara a necessidade desta superação de limites entre o indivíduo e o mundo que o cerca. Conforme salienta Rogoff,

 

as transformações envolvidas na apropriação participatória são desenvolvimentais no sentido que são mudanças em direções distintas. A direção do desenvolvemento varia do ponto de vista local (de acordo com valores culturais, necessidades interpessoais e circunstâncias específicas), não exigindo a especificação de etapas finais universais ou ideais do desenvolvimento. (Idem, p137)

 

            O questionamento que atualmente a psicologia se coloca acerca da socialização infantil é um movimento que ultrapassa a própria psicologia, visto que tem sido produzido em agenciamentos com diversas disciplinas das ciências sociais e biológicas. No campo da transdisciplinaridade, território por excelência da teoria das representações sociais,  a psicologia tem sido criticamente integrada, contribuindo significativamente para a produção de saberes não fragmentários. Em sua interface com outras áreas de conhecimento, a psicologia do desenvolvimento tem passado por reformulações e, sobretudo pela reorientação do seu próprio modo de problematizar. O processo de revisão de paradigmas que se instalou na psicologia social a partir da contribuição da teoria das representações sociais, está diretamente relacionado ao diálogo que esta foi capaz de estabelecer com outros ramos do conhecimento, orientados por uma abordagem do humano como fenômeno complexo e pluridimensional, reconhecendo a impossibilidade de apreensão do homem e da vida por ciências parciais. É o próprio campo de visão das ciências humanas que se expande, visto que nem sujeito nem ambiente podem mais ser considerados um sem o outro, sendo esta própria distinção interrogada o palco da invenção de novos problemas. Há um reconhecimento por parte da ciência da necessidade de produção de novas formas de problematizar, capazes de contribuir para o entendimento de fenômenos humanos que não se restringem nem ao individual, nem ao social e, muito menos, ao universal. Esta tomada de consciência tem sido objeto de análise de muitos pesquisadores e um dos nossos objetivos de pesquisa é justamente o de participar da reflexão acerca dos conceitos e das verdades científicas que formam postuladas na psicologia do desenvolvimento.

Com a finalidade de avaliar a influência do ecossistema no desenvolvimento infantil partimos de três hipóteses complementares, a saber: o desenvolvimento infantil é diretamente influenciado pelo contexto ecológico no qual a criança se encontra inserida, diferentes contextos ambientais terão impactos diferenciados sobre o processo de socialização infantil e, finalmente, a partir de sua experiência no contexto ecológico a criança produz representações sociais que orientarão sua conduta em relação ao meio-ambiente. Na direção de esclarecimento das questões acima enumeradas temos, entre nossos objetivos específicos, a meta de realizar levantamento das representações sociais infantis acerca do meio-ambiente ecológico, utilizando a técnica de desenho temático e construção de texto a partir do material produzido. Duas comunidades forma eleitas como sujeito sendo a primeira uma colônia de pescadores do litoral do sul da Bahia e a segunda um grupo constituído por remanescentes de quilombo na região do semi-árido baiano. Acerca desta última, algumas análises sobre o cotidiano infantil já foram efetivadas (cf. Profice, 2003).

Acreditamos que a criança se socializa a partir das interações que estabelece em seu meio. Os diferentes ecossistemas terão um impacto diferenciado sobre a socialização infantil, refletindo diretamente no modo como a criança percebe e se relaciona com o meio-ambiente. Com o objetivo de elucidação do fenômeno destacado, devemos empreender uma compreensão ampliada acerca do desenvolvimento que passa a ser analisado a partir da perspectiva da apropriação participativa. Desta forma, partimos do princípio orientador de que a criança construirá representações sociais com base na experiência de vida que se efetiva em seu meio sócio-ambiental.. Concordamos com Moscovici quando este sustenta que

 

Antes de tudo trata-se de considerar o homem como uma força da natureza, uma força entre outras. Seu interesse lhe aconselha a estreitar as ligações, de  permitir que as outras forças se desenvolvam, se renovem, em vez de esgota-las numa busca sem fim de energias a explorar e de espécies para destruir, de uma abundância que se transforma continuamente em escassez; de renunciar a esta atitude predatória tão fortemente ancorada nele.(Moscovici, in Diegues, 1998, p. 57).

 

No plano do vasto campo de conhecimento estabelecido pela ecologia humana, a teoria das representações sociais assume posição chave na construção de paradigmas. A compreensão acerca das conseqüências psicológicas produzidas pelos ambientes nos quais a criança participa, retira o enfoque do organismo individual passando a uma abordagem da rede de interações que se produzem na experiência infantil. Os próprios indicadores de saúde e de qualidade de vida são apresentados a partir de outros critérios, muito mais abrangentes, incluindo diversas dimensões ambientais diretamente relacionadas com a experiência infantil,  e portanto capazes de influenciá-la significativamente.

 

Bibliografia

 

ALBUQUERQUE, J. L. B. , CÂNDIDO-JUNIOR, J.F., STRANBE, F. C., ROODS, A.L. Correção politica e biodiversidade: a crescente ameaça das “populações tradicionais” à Mata Atlântica. In Ornintologia e Conservação: da ciência às estratégias. Tubarão: Editora Unisul, 2001.

AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas,SP: Papirus, 1994.

DIEGUES, A.C. O Mito  Moderno da Natureza Intocada. São Paulo: Hucitec, 1998.

PROFICE, C.C. As cavernas e seus diferentes modos de ocupação no tempo e no espaço. Anais do XXV Congresso Brasileiro de Espeleologia, Januária: 2003.

ROGOFF, B. Observando a atividade sociocultural em três planos: apropriação participatória, participação guiada e aprendizado. In WERTSCH, J. V., RIO, P. del, ALVAREZ, A. Estudos sócioculturais da mente. Porto Alegre: Artmed, 1998.

SEMIN, G. R. Protótipos e representações sociais. In JODELET, D. As representações sociais. Rio de Janeiro: EdUerj, 2001.