Uesc -Universidade Estadual de Santa Cruz

PPGH - Programa de Pós-graduação em História


Base Curricular

  • Área de concentração
  • Linhas de Pesquisa
  • Estrutura Curricular
  • Disciplinas e Componemtes
  • Oferta de Disciplinas

História do Atlântico e da Diáspora Africana

O PPGH-UESC tem sua Área de Concentração em "História do Atlântico e da Diáspora Africana" e tal delimitação traz consigo alguns significados e conceitos que remetem a uma amplitude temática, geográfica e cronológica. Estes têm um impacto direto sobre a perspectiva pela qual se analisam os fenômenos e processos sociais, sejam eles em suas dimensões sincrônicas ou diacrônicas. Assim sendo, é necessário contextualizar em que âmbito teórico e metodológico se inscreve nossa proposta.

A primeira delimitação do Programa de Pós-Graduação em História: Atlântico e Diáspora Africana é quanto a seus marcos cronológicos, uma vez que sua Área de Concentração está situada a partir da "abertura do mundo atlântico", e, neste sentido, as pesquisas acolhidas no programa devem abordar do século XV em diante. Tratam-se, portanto, de pesquisas voltadas sobretudo à História Moderna e Contemporânea, em articulação com movimentos históricos locais, regionais e globais. O programa acolhe também propostas inseridas nos marcos da História do Tempo Presente, dando especial atenção para que os temas muito atuais e em diálogo com a Educação, Sociologia, Política, Antropologia ou Direito recebam um tratamento metodológico historiográfico e, ao final da pesquisa, o produto — a dissertação de mestrado — esteja condizente com o que se entende como um trabalho do campo da História.

O conceito de Atlântico que adotamos parte inicialmente dos métodos compreendidos nos trabalhos produzidos, nas décadas de 1950 e 1960, como em “O Mediterrâneo e o Mundo mediterrâneo no Tempo de Felipe II” de Fernand Braudel. Porém, abandonamos a perspectiva eurocêntrica presente nesses trabalhos e que levou autores como Pierre Chaunu a afirmar abertamente a prevalência europeia sobre as demais regiões, caracterizando os europeus como os seus únicos atores na construção do que chamou Atlântico humanizado.

Peter Linebaugh, no início dos anos 1980, propôs uma visão em que o Atlântico formaria uma comunidade composta pela Europa, África e Américas. Essas regiões se articulavam e cooperavam entre si, não sem embates, tendo como principal elo os navios que dariam funcionalidade ao espaço atlântico.

O navio também é destacado por Paul Gilroy, uma década depois, em “O Atlântico Negro”, definindo-o como algo vivo e em movimento, envolto em cultura e política. Aqui há a manutenção da perspectiva de um mundo atlântico conectado pelos navios que ligariam os continentes banhados pelo oceano Atlântico. Nesse espaço se encontrariam e circulariam pessoas, projetos, ideias e artefatos políticos e culturais. Uma mudança que se percebe nessa proposta é o foco da análise de Gilroy, agora em um Atlântico visto pelo prisma dos africanos e afrodescendentes, não por uma perspectiva afrocêntrica, mas com destaque das características híbridas, sincréticas e crioulas que esses movimentos no Atlântico provocam em suas margens.

David Armitage, no ano 2000, contribuiu com uma dimensão geopolítica para a compreensão do Atlântico e que se encontra em “Três Conceitos de História Atlântica”. Destacou a existência de um Atlântico branco, com raízes na Guerra Fria; de um Atlântico negro, com raízes no período posterior à Guerra de Secessão dos Estados Unidos; e de um Atlântico vermelho, com raízes no cosmopolitismo marxista. Ademais, considerou a proposição de uma história do Atlântico multicolor e não exclusivamente anglófona, com dimensões de uma história transnacional, de uma história nacional ou uma história regional em contextos atlânticos.

Assim, o Atlântico, além de sua conotação geográfica mais imediata – o oceano que separa e liga a América, África e Europa – tem sido pensado e proposto a partir de referenciais metodológicos e historiográficos, como um espaço de contato e circulação de pessoas procedentes, principalmente mas não somente, dos três continentes banhados por essas águas oceânicas, e, com elas ou por causa delas, suas ideias, memórias, valores, tradições, línguas, literaturas, políticas, economias, enfim, tudo que o ser humano carrega e que lhe confere a característica de um ente que produz cultura. É a partir dessa perspectiva que o termo “Atlântico” é empregado no âmbito do PPGH e da Linha de pesquisa Experiências Atlânticas: Economia, Política e Sociedade.

No âmbito do PPGH-UESC, a Diáspora Africana é de tal forma imbricada com os estudos do Atlântico, como nos termos das discussões apresentadas por Linebaugh, Gilroy e Armitage, que são considerados indissociáveis. Pesquisar qualquer aspecto da Diáspora Africana a partir do Brasil é tratar de uma experiência atlântica.

A diáspora é entendida como a saída de grandes contingentes populacionais de sua terra de origem por razões econômicas, políticas ou culturais, provocada muitas vezes por conflitos bélicos, por desastres naturais ou por desejos de expansão, gerando migrações forçadas ou não forçadas. Na história do mundo atlântico, as grandes massas de população em movimento diaspórico foram de pessoas transformadas forçosamente em trabalhadores com obrigação de serviço por tempo indeterminado ou como criminosos deportados. No entanto, não circunscrevemos a ideia de diáspora no Atlântico apenas ao movimento gerado pela circulação de pessoas direta ou indiretamente vinculadas ao transporte de trabalhadores forçados, ou ao tráfico de escravos. A diáspora atlântica tem proporções muito maiores.

Diante disso, a Diáspora Africana é um aspecto dentro desse movimento maior, contudo com impactos profundos e indeléveis nas sociedades que se constituíram a partir de sua existência. Iniciamos com Stuart Hall que trata a Diáspora Africana a partir de sua dimensão cultural que impacta a própria noção de identidade dos povos que se formaram a partir da chegada de outros em diáspora. Essa noção de identidade, ainda segundo Hall, está imbricada na história e na cultura, ou nos movimentos constantes que a compõem, ou seja, é fluida e não fixa ou indivisível.

Nesse sentido, produzir conhecimento a partir da Diáspora Africana é propor investigar a história a partir dos homens e mulheres de origem africana em diáspora pelo mundo Atlântico, bem como de seus descendentes, e, também, de seus projetos, ideias, engenharias, artefatos políticos, economias, produtos culturais, o que perfaz algo incalculável. Desse universo, recortamos aqueles que se vinculam diretamente aos movimentos entre o Continente Africano e as Américas, entendendo que “outras diásporas” poderão ser abordadas, mas a partir de estudos mais amplos das relações atlânticas.

O destaque dado à diáspora africana justifica-se por questões políticas, demográficas e econômicas que impuseram aos africanos uma ativa participação na construção do novo mundo atlântico, após 1450, como aponta John Thorton. Os africanos escravizados e seus descendentes – os afro-americanos – com sua relevante contribuição econômica e cultural foram fundamentais na formação do mundo atlântico e o impacto cultural foi produto de sua ação no mundo que se criava, onde eles ocuparam posições importantes nas áreas de maior transformação. O Brasil foi uma dessas áreas e hoje concentra a maior população negra fora do continente africano. Desse modo, para se compreender corretamente a História do Brasil, das Américas e do mundo, de um modo geral, é imprescindível analisá-la levando em consideração o movimento produzido continuamente por esse contingente populacional.

É desse ponto de vista que se entende e se emprega o termo “Diáspora Africana” no âmbito do PPGH-UESC e da Linha de pesquisa Experiência da Diáspora Africana: Identidade, Cultura e Sociedade.


Linha de Pesquisa 1: Experiências Atlânticas: Economia, Política e Sociedade
Está dedicada ao estudo de movimentos históricos em dimensões locais, regionais e globais, situados na História Moderna e Contemporânea. Acolhem-se investigações que dialogam com outras áreas do conhecimento - como Educação, Sociologia, Política, Antropologia, Direito - em diálogo com o campo da História. As experiências atlânticas são centrais, considerando o Atlântico como uma comunidade marcada por contradições e assimetrias, composta por sociedades da Europa, África, Caribe e Américas, cujos processos históricos se influenciaram mutuamente desde o século XVI até hoje. A linha empenha-se na pesquisa de temas como circulação de pessoas, ideias, memórias, valores, tradições, línguas, literaturas, políticas e economias, e agrega pesquisadores interessados em analisar a circularidade de pessoas e ideias, bem como a articulação e reorganização dos espaços sociais e urbanos no contexto atlântico.

As experiências atlânticas indicam que os marcos geográficos de investigação giram em torno do Atlântico, entendido como um espaço de contato de regiões distantes e diversas. Partindo de uma concepção de que há um mundo atlântico que se formou a partir do momento em que o oceano Atlântico ficou conhecido e acessível – com as navegações do século XV em diante – entendemos que as sociedades humanas passaram a se organizar política e economicamente de tal forma diferente do que era antes, que as histórias necessitam ser investigadas. Consideramos, portanto, o Atlântico como uma comunidade, ainda que marcada por contradições e assimetrias, composta pelas sociedades da Europa, África, Caribe e Américas, cujos processos históricos se influenciaram e interpenetraram desde o século XVI até os dias atuais.
Palavras-chave: História, Educação, Relações Raciais; Economia, Política e Sociedade; África, Diáspora e Cultura.

Linha de Pesquisa 2: Experiência da Diáspora Africana: Identidade, Cultura e Sociedade
Está dedicada às investigações sobre a história dos africanos e afrodescendentes e sua contribuição para a formação das sociedades do mundo atlântico. A ênfase está na Diáspora Africana, que, devido a questões políticas, demográficas e econômicas, impuseram aos africanos uma presença e ação efetiva muito além de seu continente de origem. As pesquisas aqui agrupadas propõem analisar aspectos da circulação de pessoas e ideias, bem como as ações políticas, econômicas, culturais, educacionais e religiosas dos africanos e seus descendentes, especialmente no Brasil, que possui a maior população negra fora da África. Essa linha de pesquisa também se empenha na análise das relações entre a África, Europa, Caribe e Américas, destacando a agência dos afrodescendentes na criação de artefatos políticos e culturais e na formação de modelos econômicos e de desenvolvimento.

As pesquisas podem e devem se circunscrever muito além do movimento de pessoas e ideias direta ou indiretamente vinculadas ao tráfico de escravos. O tráfico legal de escravizados para as Américas se encerrou no século XIX. Porém, o movimento de pessoas, as trocas e circulações de ideais, projetos políticos, geopolíticos, econômicos, sociais, culturais, estéticos, religiosos e educacionais, entre a África e a Europa, o Caribe e as Américas, parece mais intenso atualmente. Ademais, internamente às próprias nações fora do continente africano, as realidades são marcadas pela presença de uma população afrodescendente que edifica as sociedades e deve estar cada vez mais presente nas historiografias.
Palavras-chave: História, Atlântico, Escravidão, Brasil; África, Cultura, Relações Raciais; Afro-brasileiro, Racismo, Educação.


Deverão ser cumpridos no mínimo:
   a) 4 Disciplinas obrigatórias de 60h (16 créditos)
   b) 2 Disciplinas optativas de 60h (8 créditos)
   c) Trabalho Final do Curso – Dissertação (72 créditos)
   d) Estágio de Docência de 45h (1 crédito
   e) Linha de Pesquisa (componente sem crédito)
   f) Seminário Temático (componente sem crédito)
   g) Pesquisa Orientada (componente sem crédito)
   h) Exame de Qualificação (componente sem crédito)


  • Trabalho Final de Curso — Dissertação (72 créditos)
  • Estágio Docência — 45h (1 crédito)

Disciplinas obrigatórias— cada uma com 60h (4 créditos):

  • Teorias e Métodos da História — Abordagem de questões teóricas e metodológicas da área de história.
  • Gestão e Execução de Projetos — Diálogo com a extensão, transformação do projeto de pesquisa em um produto extensionista. Desenvolve-se dentro do Projeto de Extensão Interlocuções, em articulação com comunidades indígenas, de matriz africana e escolas da educação básica.
  • Seminário Temático História do Atlântico e da Diáspora Africana — Abordagem de questões teóricas, metodológicas e historiográficas vinculadas à área de concentração do PPGH-UESC.
  • Seminário de Linha de Pesquisa — Abordagem das questões teóricas, metodológicas e historiográficas de cada linha, provocadas a partir dos projetos de pesquisa dos discentes e docentes.

 

Disciplinas optativas

Disciplinas optativas do Núcleo comum (cada uma com 60h e 4 créditos)

  • História Moderna: Atlântico (Sec. XV-XVIII)
  • História Contemporânea: Atlântico (Sec. XIX – XX)
  • História da América
  • História do Brasil
  • Metodologia do Ensino de História
  • Literatura
  • Tópicos Interdisciplinares

Disciplinas optativas por linha de pesquisa (cada uma com 60 h e 4 créditos)

  • LINHA DE PESQUISA: EXPERIÊNCIAS ATLÂNTICAS
    • Migrações e Movimento de Populações
    • História Política
    • Economia
    • Crescimento e Desenvolvimento Econômico
    • História Portuária
    • Tópico Extensão Universitária 1
  • LINHA DE DIÁSPORA AFRICANA
    • História e Cultura africanas, afro-brasileiras e indígena
    • Educação das relações étnico-raciais
    • História da África
    • História e Diásporas africanas
    • Literatura africana e afro-brasileira
    • Tópico de Extensão Universitária 2

Ementas das disciplinas, atividades e estágio

Compomente Curricular Obrigatório e sem cretitação:

  • PESQUISA ORIENTADA (a partir do 2º. Semestre até a finalização do curso)
  • SEMINÁRIO DE PESQUISA EM HISTÓRIA (concomitante à Linha de Pesquisa, para culminância de uma atividade prática)
  • EXAME DE QUALIFICAÇÃO (programado para o 3º. semestre)

 

Atividades obrigatórias para Mestrado

Atividade Carga horária Créditos
Pesquisa Orientada 0 0
Seminário de Pesquisa em História 0 0
Estágio de Docência 45 1
Exame de Qualificação 0 0

Número de créditos exigidos: 26 (vinte e seis). Sendo 20 (vinte) créditos obtidos com aprovação nas disciplinas e 6 (seis) créditos obtidos pela aprovação na defesa da dissertação.