Uesc -Universidade Estadual de Santa Cruz

Espaço Ciência Saúde - Ano de publicação 2026

Doenças Crônicas

1. Efeito de uma intervenção liderada por agentes comunitários de saúde na atividade física de adultos com diabetes tipo 2 na atenção primária à saúde na Amazônia brasileira.

Resumo por: Marina Neiva Sales

O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crônica caracterizada pela resistência à insulina e produção insuficiente deste hormônio, resultando em hiperglicemia (alto açúcar no sangue). A prática regular de exercício físico por portadores de diabetes contribui para melhorar o controle glicêmico, reduzir os fatores de risco cardiovascular, contribuir para a perda de peso e aumentar o bem estar. Nesse contexto, o artigo analisou o efeito de uma intervenção conduzida por Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) com o objetivo de estimular a prática de atividade física entre adultos diagnosticados com diabetes mellitus tipo 2 na Atenção Primária à Saúde (APS) em Iranduba, cidade localizada na Amazônia brasileira. O estudo foi realizado envolvendo 274 participantes acompanhados por seis meses, com visitas domiciliares e orientações para mudança de comportamento relacionadas à atividade física. Entre os principais resultados que impactam a prática em saúde pública, o estudo demonstrou que a intervenção reduziu significativamente a probabilidade de os participantes permanecerem totalmente inativos em atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa. O grupo que recebeu a intervenção apresentou menor chance de registrar zero minutos de atividade física comparado ao grupo controle, indicando que a estratégia foi eficaz para iniciar a prática de atividade física em indivíduos sedentários. Dessa forma, a intervenção conduzida por Agentes Comunitários de Saúde apresenta potencial para promover mudanças positivas no comportamento relacionado à atividade física em pessoas com diabetes tipo 2, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social e acesso limitado a serviços de saúde. O estudo reforça a importância da atuação desses profissionais na promoção da saúde, no incentivo ao autocuidado e no fortalecimento das ações da Atenção Primária à Saúde.

Referência bibliográfica: DE LEON, Elisa Brosina; SQUARCINI, Camila Fabiana Rossi; SOARES, Iasmin Machado; CAMPOS, Hércules Lázaro Morais; COSTA, Rafael Martins da. Effect of a community health worker-led intervention on physical activity in adults with type 2 diabetes in primary health care in the Brazilian Amazon. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 23, n. 276, 2026.

Artigo completo: https://doi.org/10.3390/ijerph23030276

2. À Sombra do Cuidado: A Vida do Familiar Cuidador da Pessoa Idosa com Alzheimer.

Resumo por: Veridiana Soares Cunha

O artigo científico em questão apresenta uma investigação qualitativa e exploratória sobre o impacto da Doença de Alzheimer (DA) no núcleo familiar, deslocando o olhar do paciente para aquele que, muitas vezes, torna-se invisível no processo terapêutico: o cuidador familiar. O estudo fundamenta-se na premissa de que o Alzheimer, por ser uma patologia neurodegenerativa, progressiva e incurável, exige uma dedicação que frequentemente ultrapassa os limites físicos e emocionais do indivíduo responsável pelo cuidado. A pesquisa foi desenvolvida por meio de uma abordagem descritiva, utilizando entrevistas semiestruturadas com cuidadores principais. A metodologia permitiu que os participantes narrassem suas trajetórias desde o diagnóstico do familiar até a rotina atual. A análise dos dados buscou identificar como a tarefa de cuidar altera a identidade, a saúde e as relações sociais dessas pessoas, utilizando referenciais teóricos sobre sobrecarga e autocuidado. Os resultados revelam uma realidade marcada pela anulação do "eu". O principal achado do estudo é a constatação de que o cuidador familiar entra em um processo de simbiose com o idoso doente, onde suas próprias necessidades básicas são postas em segundo plano. Os autores sugerem que estratégias como a criação de grupos de apoio e programas de "descanso" (onde o cuidador pode delegar a função por um período para recuperar suas energias) são vitais. Conclui-se que o cuidado deve ser compartilhado; caso contrário, o cuidador torna-se um "segundo paciente", desenvolvendo patologias tão graves quanto as do idoso assistido.

Referência bibliográfica: FARIAS, Laís Souza dos Santos et al. À sombra do cuidado: a vida do familiar cuidador da pessoa idosa com Doença de Alzheimer. Cadernos Cajuína, [S. l.], v. 11, n. 1, p. e1111776, 2026.

Artigo completo: https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/1776.

3. Fatores associados à qualidade de vida de mães de crianças e adolescentes com diabetes tipo 1

Resumo por: Jaynny Pereira dos Santos

A qualidade de vida de mães cuidadoras de crianças e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é impactada pela complexidade do cuidado contínuo exigido por essa condição crônica. O estudo analisado caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa, transversal, com abordagem analítica, realizada com 53 mães de crianças e adolescentes diagnosticados com DM1 no Nordeste brasileiro. O objetivo foi identificar fatores associados à baixa qualidade de vida dessas cuidadoras, utilizando o instrumento WHOQOL-BREF para avaliação dos domínios físico, psicológico, social e ambiental.

Os resultados mostraram que a qualidade de vida das mães foi considerada moderada. O aspecto mais comprometido foi o domínio ambiental, relacionado principalmente às condições financeiras, acesso aos serviços de saúde, transporte e oportunidades de lazer, evidenciando maior vulnerabilidade nessas áreas. Já os aspectos físicos, psicológicos e sociais apresentaram melhores resultados, indicando percepção mais positiva nessas dimensões.

A análise dos fatores associados revelou que mães com idade igual ou superior a 41 anos, com menor escolaridade, sem companheiro, com doenças associadas e inseridas no trabalho doméstico apresentaram maior prevalência de baixa qualidade de vida. Por outro lado, fatores como maior nível de escolaridade, ausência de doenças e presença de parceiro configuraram-se como elementos de proteção.

O estudo destaca a forte influência dos determinantes sociais, especialmente renda e escolaridade, na qualidade de vida dessas mulheres, evidenciando que o cuidado com o DM1 extrapola o âmbito clínico e impacta diretamente a vida familiar e social. Além disso, a sobrecarga do papel de cuidadora pode levar a prejuízos no autocuidado, saúde mental e bem-estar geral.

Dessa forma, conclui-se que o manejo do diabetes tipo 1 deve incluir não apenas o tratamento da criança, mas também suporte integral às mães cuidadoras, com foco em assistência psicológica, social e educacional. A inclusão da família no plano de cuidado e a implementação de políticas públicas voltadas à melhoria das condições socioeconômicas são fundamentais para promover melhor qualidade de vida e garantir um cuidado mais efetivo e humanizado.

Referência bibliográfica: Silva, T.S.S., Cortes, M.L., Aguiar, E.C. et al. Factors associated with the quality of life of mothers of children and adolescents with type 1 diabetes. Discov Public Health 23, 275 (2026).

Artigo completo: https://doi.org/10.1186/s12982-026-01590-1

4. Modelagem robusta dos padrões de mortalidade cardiovascular (2008–2024): Aplicação da regressão quase-Poisson para avaliar as disparidades demográficas e regionais.

Resumo por: Marina Neiva Sales

O presente estudo aborda a modelagem estatística robusta dos padrões de mortalidade por Doenças do Sistema Circulatório (DSC) no Brasil, analisando uma série temporal ecológica de longo prazo entre os anos de 2008 e 2024. Visto que as doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morbidade e mortalidade global e nacional, impondo um severo impacto socioeconômico ao Sistema Único de Saúde (SUS), a pesquisa contextualiza essas patologias investigando variáveis demográficas e disparidades regionais. A análise utilizou dados secundários oficiais do DATASUS combinados a estimativas populacionais do IBGE, empregando uma abordagem metodológica inovadora para corrigir a superdispersão de dados de contagem em saúde pública. O objetivo central do trabalho foi examinar as tendências espaço temporais e os determinantes demográficos dessa mortalidade no território brasileiro ao longo do período selecionado. Para alcançar esse propósito, aplicou-se um modelo de regressão quasi-Poisson multivariável estruturado para quantificar simultaneamente os gradientes de risco associados a macrorregiões, sexo, faixas etárias e subcategorias diagnósticas específicas da CID-10, ajustando rigorosamente os resultados pelas tendências temporais lineares e pelo tamanho das populações sob risco por meio de um fator de compensação (*offset*).

Os resultados estatísticos revelaram dados epidemiológicos de grande impacto para o direcionamento de políticas públicas e estratégias de atenção primária no país. Identificou-se um aumento anual persistente de 0,62% na mortalidade por DSC no Brasil durante o período avaliado (Razão de Taxas de Incidência - IRR = 1,0062; IC 95% 1,0047–1,0077), evidenciando uma preocupante inversão de tendências anteriores de declínio. No âmbito das desigualdades regionais, mesmo após o ajuste por idade e sexo, evidenciou-se uma forte disparidade geográfica: utilizando a região Sudeste como referência, a região Norte apresentou uma taxa de mortalidade substancialmente menor (IRR = 0,109; IC 95% 0,105–0,113), seguida por reduções também expressivas nas regiões Centro-Oeste (IRR = 0,137) e Nordeste (IRR = 0,556), o que sugere diferenças profundas nos determinantes sociais e no acesso a serviços de saúde de alta complexidade. Adicionalmente, a idade consolidou-se como o determinante biológico mais forte para o desfecho, visto que indivíduos com 80 anos ou mais apresentaram uma taxa de mortalidade impressionantemente 48 vezes maior (IRR = 48,36; IC 95% 44,34–52,74) quando comparados ao grupo de referência de adultos jovens de 20 a 29 anos. Em relação às diferenças por gênero, as mulheres demonstraram taxas de mortalidade significativamente menores do que os homens (IRR = 0,906; IC 95% 0,893–0,919). Por fim, quanto às causas específicas codificadas pela CID-10, as doenças isquêmicas do coração (I20–I25) predominaram de forma crônica e estável como a principal causa subjacente de óbito cardiovascular em toda a janela temporal de 16 anos, seguidas pelas doenças cerebrovasculares (I60–I69) e pelas patologias hipertensivas, reforçando a necessidade de intervenções clínicas direcionadas a esses perfis de maior vulnerabilidade.

Referência bibliográfica: MATOS, E. P.; RABITO, L. B. F.; BARRETO, R. S.; SOUZA, N. C. de; SANTOS OLIVEIRA, J. A. dos; SANCHES, R. C. N. Robust modeling of cardiovascular mortality patterns (2008-2024): applying quasi-Poisson regression to assess demographic and regional disparities. International Journal of Cardiology, v. 453, p. 134452, 2026.

Artigo completo: https://doi.org/10.1016/j.ijcard.2026.134452

5. Regulação emocional no cuidado de enfermagem às doenças crônicas não transmissíveis: revisão de escopo

Resumo por: Marina Neiva Sales

O artigo aborda a regulação emocional no cuidado de enfermagem às pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias. A regulação emocional refere-se à capacidade de reconhecer, controlar e modificar emoções diante das dificuldades impostas pela doença. Os autores discutem como a enfermagem tem trabalhado esse aspecto e quais estratégias são utilizadas para promover o bem-estar emocional desses pacientes. O objetivo do estudo foi mapear, na literatura científica de enfermagem, os conceitos e estratégias relacionados à regulação emocional no contexto das doenças crônicas não transmissíveis. Para isso, foi realizada uma revisão de escopo baseada na metodologia do Joanna Briggs Institute, na qual foram analisados estudos publicados em diferentes bases de dados da área da saúde. Dos 370 estudos inicialmente identificados, apenas 12 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final da pesquisa. Os resultados demonstraram que a regulação emocional é frequentemente abordada de forma indireta nas pesquisas de enfermagem, sendo associada a variáveis como ansiedade, depressão, ruminação, qualidade do sono e bem-estar emocional. Além disso, verificou-se que poucos estudos apresentam uma definição clara deste conceito dentro da enfermagem, revelando uma lacuna teórica importante. As principais estratégias identificadas incluíram práticas integrativas, como yoga, meditação, mindfulness, aromaterapia e musicoterapia, além de programas de atividade física, apoio familiar e comunitário, acompanhamento por tecnologias digitais e ações voltadas ao autocuidado e à autogestão da doença. Essas intervenções mostraram impactos positivos, contribuindo para a redução da ansiedade, da depressão e do estresse, melhora da qualidade do sono, fortalecimento da adesão ao tratamento, aumento da capacidade de autocuidado e melhora da qualidade de vida dos pacientes. O estudo conclui que, embora a enfermagem já desenvolva diversas intervenções capazes de favorecer o manejo emocional de pessoas com doenças crônicas, ainda existe uma carência de estudos que consolidem a regulação emocional como um conceito próprio da área. Dessa forma, destacam a necessidade de novas pesquisas que fortaleçam a construção de diagnósticos, protocolos e estratégias específicas de enfermagem voltadas para a regulação emocional, contribuindo para um cuidado mais integral e qualificado.

Referência bibliográfica: PEREIRA DA SILVA, A.; DOMENICO, E. B. L. de; SANTOS, R. P. da Silva; SILVA, C. T. dos Santos; SANTA ROSA, D. de O. Regulação emocional no cuidado de enfermagem às doenças crônicas não transmissíveis: revisão de escopo. RECIMA21 - Revista Científica Multidisciplinar, v. 7, n. 5, e757948, 2026.

Artigo completo: https://doi.org/10.47820/recima21.v7i5.7948

6. Fatores Associados à Amputação e Úlcera de Membro Inferior em Pessoas com Diabetes Mellitus

Resumo por: Lucielly Souza de Oliveira

O Diabetes Mellitus (DM) está associado ao desenvolvimento de complicações crônicas, como o pé diabético, caracterizado por úlceras, infecções, deformidades e outras lesões nos membros inferiores que podem evoluir para amputações. Essas complicações impactam negativamente a qualidade e expectativa de vida, além de representarem um desafio para a saúde pública. Este estudo teve como objetivo identificar os fatores associados à ocorrência de úlceras e amputações de membros inferiores em pessoas com diabetes mellitus atendidas em uma campanha de saúde no município de Itabuna, Bahia. Trata-se de um estudo transversal realizado com 1.542 participantes, selecionados por amostragem aleatória simples entre os indivíduos presentes na ação. A média de idade foi de 62,09 anos (mediana de 63 anos). Responderam a um questionário clínico-epidemiológico e foram submetidos à avaliação para retinopatia diabética e pé diabético. Foram incluídas pessoas com diagnóstico de diabetes mellitus de ambos os sexos e qualquer idade, sendo excluídos os indivíduos pré-diabéticos. Predominaram participantes do sexo feminino (64,7%), com ensino fundamental incompleto (41,2%) e sem convênio médico (92,2%). Observou-se elevada frequência de uso de calçados inadequados (81,5%), deformidades nos pés (86,2%) e micoses (30,5%). A prevalência de amputação foi de 1,9% e de úlceras nos pés foi de 2,9%. Os principais fatores associados ao risco de amputação foram: sexo masculino, uso de insulina e maior tempo de diagnóstico do diabetes, sendo este último também relacionado à ocorrência de úlceras. Os achados reforçam a importância do acompanhamento contínuo, do exame clínico dos pés, da identificação precoce dos fatores de risco e das ações de educação em saúde para prevenir complicações, reduzir amputações e melhorar a qualidade de vida das pessoas com diabetes. A atuação dos profissionais de saúde e o fortalecimento das estratégias de cuidado são essenciais para um manejo mais eficaz da doença.

Referência bibliográfica: Santos IR, Farias LSS, Ribeiro IJS, Silva IES, Araújo M, Andrade REA, Azevedo VS, Rocha RM. Fatores Associados à Amputação e Úlcera de Membro Inferior em Pessoas com Diabetes Mellitus. Saúde Coletiva (Edição Brasileira)

Artigo completo: https://doi.org/10.36489/saudecoletiva.2026v17i108p20194-20205

7. Padrões de carga de complicações em pessoas com diabetes: uma abordagem de análise de classe latente

Resumo por: Yasmim Louise Dias Maia

Este estudo transversal foi realizado durante uma campanha de saúde voltada para pessoas com diabetes mellitus em um município do sul da Bahia, com o objetivo de identificar padrões de complicações associadas à doença e sua relação com outras comorbidades. Participaram 1.542 indivíduos diagnosticados com diabetes, que responderam a questionários clínicos e epidemiológicos e realizaram exames oftalmológicos. Para analisar os dados, os pesquisadores utilizaram a técnica de análise de classes latentes, que permite agrupar pessoas com características semelhantes.

Os resultados identificaram dois grupos distintos. O primeiro, representando 86,6% dos participantes, apresentou menor carga de complicações, com preservação da função vascular e da sensibilidade dos pés. Já o segundo grupo, composto por 13,4% dos indivíduos, apresentou maior frequência de úlceras, amputações, ausência de pulsos periféricos e redução da sensibilidade protetora, indicando maior comprometimento vascular e neurológico. A maioria dos participantes tinha idade igual ou superior a 60 anos, era do sexo feminino e possuía ensino fundamental completo ou incompleto. Além disso, os indivíduos pertencentes ao grupo com maior carga de complicações apresentaram prevalência significativamente mais elevada de doenças cardiovasculares, infarto do miocárdio, doenças neurológicas e retinopatia diabética. Esses achados demonstram que as complicações vasculares, neurológicas e microvasculares tendem a ocorrer simultaneamente em pessoas com diabetes mais avançado, aumentando a complexidade do cuidado e a necessidade de acompanhamento especializado.

Os autores concluem que a identificação desses padrões de complicações pode contribuir para o planejamento de estratégias de saúde pública e para a melhor organização dos serviços de atendimento às pessoas com diabetes. Embora o estudo não permita estabelecer relações de causa e efeito, ele destaca a importância do rastreamento precoce e do monitoramento contínuo das complicações, especialmente entre indivíduos com sinais de problemas vasculares e neuropáticos, visando reduzir agravamentos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Referência bibliográfica:

Artigo completo: https://doi.org/10.1007/s00592-026-02703-7

8. Um continuum mecanístico entre autoimunidade sistêmica e linfomas indolentes de células B: um modelo de neoplasia linfóide não infiltrativa

Resumo por: Veridiana Soares Cunha

Este artigo propõe que as doenças autoimunes sistêmicas (como Lúpus, Artrite Reumatoide e Síndrome de Sjögren) funcionam, na verdade, como um estágio inicial e "não-infiltrativo" de um câncer linfático (linfoma). Os autores explicam que a inflamação crônica e o ataque constante dos autoanticorpos mantêm as células de defesa (linfócitos B) em um estado de multiplicação perpétua. Geneticamente, essas células já ativam as mesmas vias de sobrevivência e resistência à morte celular (como as proteínas BCL-2 e BAFF) vistas em linfomas indolentes. A única razão para esse quadro ainda não ser considerado um câncer agressivo é que as células doentes ainda dependem do estímulo inflamatório para crescer e não sofreram uma mutação genética definitiva que as torne totalmente autônomas. Essa ligação é comprovada por dados epidemiológicos de alto risco (a Tireoidite de Hashimoto, por exemplo, eleva em 60 vezes o risco de linfoma tireoidiano) e pelo fato de que os mesmos medicamentos biológicos, como o rituximabe, tratam com sucesso ambas as condições. O estudo conclui que a transição da autoimunidade para o linfoma é um processo contínuo e gradual, o que significa que tratar a inflamação precocemente e remover gatilhos (como o glúten na doença celíaca) serve como uma estratégia direta para prevenir o surgimento do câncer.

Referência bibliográfica: ANDRADE, Luís Jesuíno de Oliveira et al. A mechanistic continuum between systemic autoimmunity and indolent b-cell lymphomas: a non-infiltrative lymphoid neoplasia model. Endocrinologia & Diabetes Clínica e Experimental, Curitiba, v. 23, n. 1, p. 38-50, 2026.

9. Rastreamento multiprofissional na prevenção do acidente vascular cerebral em comunidade: relato de experiência

Resumo por: Getulivan Alcantara de Melo

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) permanece entre as principais causas de morbimortalidade e incapacidade no Brasil, sendo a hipertensão arterial sistêmica seu principal fator de risco modificável. Diante desse cenário, estratégias voltadas para a identificação precoce de fatores de risco cardiovasculares são fundamentais para a prevenção primária e secundária da doença. O artigo apresenta um relato de experiência sobre uma campanha comunitária de conscientização e prevenção do AVC realizada em Ilhéus, Bahia, por meio de uma parceria entre a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e o Hospital Regional Costa do Cacau (HRCC).

A iniciativa integrou atividades de extensão universitária, educação em saúde e assistência multiprofissional, envolvendo estudantes, docentes e profissionais da área da saúde na realização de triagens cardiovasculares. Participaram da ação 450 adultos e idosos, submetidos à aferição da pressão arterial, avaliação glicêmica capilar, medidas antropométricas, orientações nutricionais e avaliação clínica especializada. Para indivíduos idosos ou classificados como de maior risco cardiovascular, também foram realizados eletrocardiogramas com emissão de laudos em tempo real por telemedicina.

A campanha permitiu identificar diversos fatores de risco cardiovasculares não controlados na população. Entre os casos detectados, destacou-se um paciente com crise hipertensiva e histórico recente sugestivo de Ataque Isquêmico Transitório (AIT), encaminhado imediatamente para atendimento hospitalar, e um paciente idoso com alteração eletrocardiográfica compatível com bloqueio de ramo direito, posteriormente direcionado para investigação cardiológica especializada. Esses achados evidenciam a importância do rastreamento ativo para identificação precoce de condições potencialmente graves e para a prevenção de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares futuros.

Os autores ressaltam que a maior parte dos casos de AVC está associada a fatores de risco modificáveis, especialmente hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia e arritmias cardíacas. Nesse contexto, campanhas comunitárias desempenham papel estratégico ao ampliar o acesso à avaliação clínica, favorecer o diagnóstico precoce e fortalecer ações de educação em saúde. Além disso, a utilização da telemedicina demonstrou potencial para qualificar o atendimento e agilizar o encaminhamento de pacientes com alterações relevantes.

Conclui-se que ações comunitárias integradas entre universidades, serviços de saúde e profissionais de diferentes áreas constituem ferramentas importantes para a prevenção do AVC e de outras doenças cardiovasculares. A experiência demonstrou que o rastreamento multiprofissional associado à educação em saúde e ao suporte tecnológico contribui para a identificação precoce de fatores de risco, fortalece a assistência preventiva e amplia o vínculo entre a comunidade e os serviços de saúde.

Referência bibliográfica: DO CARMO, Thaís Barros et al. Rastreamento multiprofissional na prevenção do acidente vascular cerebral em comunidade: relato de experiência. Hipertensão, v. 28, e0001, 2026.

Artigo completo: https://www.sbh.org.br/arquivos/revistas/2026-revista-vol-28/

10. Vivências de cuidadores de pessoas idosas com doença de Alzheimer: uma análise netnográfica

Resumo por: Fernanda Quéren dos Santos Silva

Perante o crescimento da doença de Alzheimer (DA) na população idosa, que progressivamente compromete sua autonomia e as atividades de vida diária, tornando-a dependente de cuidados integrais e contínuos, surge a figura do cuidador, exercida em sua maioria por mulheres, que assumem a árdua responsabilidade pelo cuidado dessas pessoas. Sem uma rede de apoio, essa função leva à sobrecarga física e emocional, comprometendo sua qualidade de vida e tornando invisibilizadas suas próprias necessidades de saúde. Diante dessa realidade e reconhecendo que, na atualidade, os modos de se comunicar vêm ganhando diferentes contornos com a incorporação e a naturalização do mundo virtual no cotidiano das pessoas, como um novo espaço de interações e troca de conhecimentos, as redes sociais tornaram-se um campo de interesse para esta pesquisa. Nesse sentido, visando conhecer os desafios vivenciados por cuidadores de pessoas idosas com DA a partir de interações virtuais, o presente estudo utiliza a netnografia, uma adaptação da etnografia (método exploratório em que o pesquisador se insere em um contexto social como observador para compreender as dinâmicas e os fenômenos a partir dos envolvidos), que busca captar as percepções desses indivíduos nos diferentes grupos que vão se formando nos ambientes de interações virtuais, onde são compartilhados aspectos do cotidiano carregados de sentidos. Para isso, foi conduzida uma busca na plataforma Instagram utilizando a hashtag “#Alzheimer”, sendo encontrada uma página brasileira de grande alcance em que era apresentada a vivência cotidiana de uma cuidadora informal, com a finalidade de apoiar outros cuidadores. A postagem que permitiu a coleta de dados foi um reels publicado no final de 2023, intitulado "Desafios do Alzheimer". Nessa publicação havia 286 comentários, que foram extraídos e exportados para uma planilha do Excel no início de 2024 por meio da ferramenta IGCommentsExport. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 19 comentários compuseram a amostra do estudo, sendo submetidos à técnica de análise de conteúdo de Bardin, sistematizada em três etapas. Esse processo resultou em quatro categorias analíticas (Rede de apoio como necessidade imprescindível ao cuidador; Sobrecarga e estresse emocional decorrentes das demandas assistenciais; Sacrifício pessoal e sentimentos de viver para o outro; Inquietudes e estratégias de enfrentamento), que evidenciaram os desafios envolvidos no processo de cuidado da pessoa com DA e o impacto negativo sobre a vida do cuidador. Os achados corroboraram a literatura ao evidenciar aspectos como o cuidado solitário, o adoecimento físico e psicológico do cuidador e os impactos nas relações sociais. Além disso, os discursos revelaram sentimentos de impotência, medo, angústia e vigilância constante, associados ao cuidado contínuo, bem como o frequente sacrifício da própria vida em função das necessidades da pessoa com DA. Também foram identificadas estratégias de enfrentamento, como a busca por apoio psicológico, o uso de psicotrópicos, a espiritualidade e, sobretudo, o processo de aceitação da doença como forma de tornar o cuidar uma função menos pesada. Os resultados reforçam que o cuidado à pessoa com doença de Alzheimer ultrapassa as demandas assistenciais, repercutindo diretamente na saúde física, emocional e social do cuidador. Nesse sentido, a pesquisa discute que a existência de uma rede de apoio, seja familiar, profissional ou institucional, constitui um fator indispensável para reduzir a sobrecarga e favorecer o autocuidado. Em conclusão, o estudo enfatiza a contribuição da netnografia e a possibilidade de incorporá-la como método de investigação na saúde, por ser capaz de captar experiências e sentimentos que dificilmente emergiriam por métodos tradicionais, ao analisar interações espontâneas em ambientes virtuais. Bem como ressalta a necessidade de políticas públicas e de ações dos serviços de saúde voltadas também para o cuidador, reconhecendo-o como sujeito que necessita de cuidado, apoio e acompanhamento.

Referência bibliográfica: SANTANA, Ananda Azevedo; BARRETO, Rejane Santos; SOUZA, Simone Santos; SOUZA, Andrea dos Santos; RABITO, Lucas Benedito Fogaça; MATOS, Endric Passos; SANCHES , Rafaely de Cassia Nogueira. Vivências de cuidadores de pessoas idosas com doença de Alzheimer: uma análise netnográfica. Revista de Enfermagem UFPE on line, Recife, v. 20, n. 1, 2026. DOI: 10.5205/1981-8963.2026.267481.

Artigo completo: https://doi.org/10.5205/1981-8963.2026.267481