Uesc -Universidade Estadual de Santa Cruz

Espaço Ciência Saúde - Ano de publicação 2025

História/Memória

1. Rios que Lava Memórias: As Lavadeiras de Vitória da Conquista no Processo de Expansão Urbana

O artigo analisa a relação entre memória, urbanização e acesso à água em Vitória da Conquista, a partir das experiências das lavadeiras da comunidade do Conquistinha. Utilizando a história oral como metodologia, reúne os relatos de duas mulheres de 75 anos que vivenciaram profundas transformações sociais, ambientais e urbanas em seu território. Os depoimentos, articulados a documentos históricos, revelam como a abundância de água foi substituída pela escassez, poluição e mercantilização do recurso. Essa mudança representou não apenas a perda do acesso à água, mas também de uma identidade cultural coletiva. Propõe-se uma reflexão sobre como a relação entre a intervenção humana no meio em que vive e o valor que a ele é atribuído pode desencadear processos de desigualdades socioespaciais, levando populações à marginalização. A memória coletiva, revela a necessidade de repensar as políticas urbanas e ambientais, bem como as ações presentes, reforçando a centralidade do direito à cidade, da justiça socioambiental e da preservação.

VASCONCELOS, L. P.; MARTA, F. E. F. Rios que lavam memórias: as lavadeiras de Vitória da Conquista no processo de expansão urbana. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [S. l.], v. 27, n. 1, 2025.

Link para artigo completo: https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202521pt

2. A Fotografia de Rua: as Memórias de Fotógrafos Lambe-Lambe da Cidade de Ilhéus-Bahia

Esse artigo investiga a fotografia de rua e a memória dos fotógrafos lambe-lambe na cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, entre os anos de 1960 e 2018. Sob a ótica da História Oral, foram realizadas entrevistas com esses profissionais — figuras centrais desse contexto — que não apenas registraram, mas também vivenciaram as transformações socioculturais, políticas e econômicas da cidade. Ao recuperar a memória coletiva, o estudo evidencia como os processos de mudança social e o avanço da tecnologia impactaram a prática da fotografia de rua, conduzindo ao declínio de certas tradições. Ainda assim, destaca a importância de preservar a memória e a identidade da comunidade ilheense por meio do trabalho desses fotógrafos e de seus registros visuais — carregados de significados e emoções para gerações passadas e capazes de dialogar com o presente. Assim, reforça-se a necessidade de salvaguardar esse elo entre passado e presente representado pelos fotógrafos lambe-lambe e sua prática.

SOARES, G. J. FERREIRA MARTA, FELIPE EDUARDO; PEREIRA, M. G.. A Fotografia de Rua: as Memórias de Fotógrafos Lambe-Lambe da Cidade de Ilhéus-Bahia. Discursos Fotográficos, 22, e51539, 2025.

Link para artigo completo: https://doi.org/10.5433/1984-7939.2025.v22.51539

3. Notas sobre a religiosidade brasileira ancestral: há contornos místicos nas pinturas rupestres do PNSC –PI?

O artigo analisa a religiosidade ancestral nas pinturas rupestres do Parque Nacional Serra da Capivara (PNSC), no Piauí, investigando contornos místicos e religiosos nessas manifestações. Com abordagem descritivo-analítica, baseou-se em revisão bibliográfica e documental, delimitação de sítios arqueológicos e registro de representações gráficas.
Os resultados indicam que as pinturas retratam rituais, danças, caça e práticas funerárias, evidenciando uma forte relação com o sagrado. A teoria do xamanismo sugere contato com planos espirituais, enquanto figuras humanas e animais simbólicos reforçam significados sagrados e míticos.
Conclui-se que a arte rupestre do Parque Nacional Serra da Capivara expressa a espiritualidade ancestral e confirma a centralidade da religiosidade nas primeiras sociedades humanas.

JUSTAMAND, MICHEL; BALBINO, ANA CRISTINA ALVES; ALMEIDA, VITOR JOSÉ RAMPANELI DE; BUCO, CRISTIANE ANDRADE; FUNARI, PEDRO PAULO; FONTES, MAURO ALEXANDRE FARIAS; COTES, MARCIAL; OLIVEIRA, GABRIEL FRECHIANI de. Notas sobre a religiosidade brasileira ancestral: há contornos místicos nas pinturas rupestres do PNSC – PI?. Cadernos Cajuína, [S. l.], v. 10, n. 3, p. e1067, 2025.

Link para artigo completo: https://doi.org/10.52641/cadcajv10i3.1067

4. Os registros rupestres no município de São Braz do Piauí? PI: Identificação do perfil gráfico das pinturas rupestres

O trabalho teve como objetivo investigar e comparar os perfis gráficos das pinturas e gravuras rupestres do município de São Braz do Piauí, localizado no corredor ecológico entre os Parques Nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões. Foram analisados três sítios arqueológicos com base em levantamento bibliográfico, prospecções de campo, registros fotográficos e análise das dimensões material, temática e cenográfica das representações. Os resultados mostraram que, embora os sítios estejam na mesma região, apresentam perfis gráficos distintos. Conclui-se que as variações nas formas, técnicas e composições refletem a diversidade cultural dos grupos que ocuparam a área e reforçam a importância de ações urgentes de conservação e educação patrimonial, visando preservar esse patrimônio arqueológico e fortalecer o sentimento de pertencimento das comunidades locais.

DE OLIVEIRA, Gabriel Frechiani; DA MOTA SANTOS, Edna; FARIAS FONTES , Mauro Alexandre; JUSTAMAND, Michel; RAMPANELI DE ALMEIDA, Vitor José; BALBINO, Ana Cristina Alves; COTES, Marcial. REGISTROS RUPESTRES DO MUNICÍPIO DE SÃO BRAZ DO PIAUÍ – PI: IDENTIFICAÇÃO DO PERFIL GRÁFICO DAS PINTURAS RUPESTRES. INTERFERENCE: A JOURNAL OF AUDIO CULTURE, [S. l.], v. 11, n. 2, p. 2237–2260, 2025.

Link para artigo completo: https://doi.org/10.36557/2009-3578.2025v11n2p2237-2260

5. Representações do ato de caçar nas pinturas rupestres do PNSC – PI: arremessar, cercar e/ou segurar

O artigo analisa a prática ancestral da caça entre os grupos humanos pré-coloniais do Parque Nacional Serra da Capivara (PNSC), no Piauí, a partir de uma abordagem comparativa das representações rupestres locais. Com base em uma perspectiva interdisciplinar, a pesquisa integra referências documentais, registros de campo realizados entre 2003 e 2019 e dados etnográficos de sociedades caçadoras contemporâneas, como os Bushmen da África do Sul. As análises evidenciam a diversidade de técnicas e instrumentos empregados, indicando que a caça podia ocorrer de forma individual ou coletiva, com a participação de homens, mulheres e, possivelmente, crianças. Conclui-se que as representações de caça nas pinturas rupestres ultrapassam o mero registro de uma atividade de subsistência, configurando-se como expressões simbólicas de uma organização social complexa, inclusiva e profundamente integrada ao ambiente e à coletividade.

JUSTAMAND, M.; BALBINO, A. C. A.; PAIVA, L.; FONTES, M. A. F.; BELARMINO, V.; COTES, M.; OLIVEIRA, G. F. de; ALMEIDA, V. J. R. de; QUEIROZ, A. N. de; CARVALHO, O. A. de; FUNARI, P. P. A. Representações do ato de caçar nas pinturas rupestres do PNSC – PI: arremessar, cercar e/ou segurar. CONTRIBUCIONES A LAS CIENCIAS SOCIALES, [S. l.], v. 18, n. 9, p. e20613, 2025.

Link para artigo completo: https://doi.org/10.55905/revconv.18n.9-075

6. Entre palcos e picadeiros: a dinâmica circense em Ilhéus no início do século XX

Trata-se de uma pesquisa que investiga a dinâmica circense em Ilhéus (BA) na década de 1920, no contexto da “Civilização do Cacau” e do projeto de modernização urbana conduzido pela elite local. Trata-se de um estudo qualitativo, narrativo e de corte transversal, baseado em fontes primárias, tendo como principal referência o jornal Correio de Ilhéus (1921–1930), disponível no acervo do CEDOC/UESC. Os resultados indicam a presença de 12 companhias circenses itinerantes na cidade, algumas em mais de uma temporada, o que evidencia sua popularidade. Além das atrações tradicionais, os circos incorporavam ginástica, boxe, contorcionismo e teatro, incluindo pantomimas e melodramas. Identificou-se também a prática da “Beneficência Compulsória”, com apresentações em prol de clubes e instituições, como a Santa Casa de Misericórdia, a fim de obter apoio local. Influenciados pelo movimento higienista, os espetáculos reforçavam a associação entre corpo, saúde e modernidade. Conclui-se que o circo foi um espaço de sociabilidade e modernidade em Ilhéus, refletindo tanto o ideal civilizatório das elites quanto as desigualdades do processo de modernização.

DANTAS DA SILVA, BRUNA; SANTANA NUNES, FÁBIO; DANIELE XAVIER, ROSANA; COTES, MARCIAL. Entre palcos e picadeiros:a dinâmica circense em Ilhéus no início do século XX. Temporalidades, Belo Horizonte, v. 17, n. 1, p. 1–24, 2025.

Link para artigo completo: https://periodicos.ufmg.br/index.php/temporalidades/article/view/55747

7. Percepções ambientais na arte rupestre: Parques Nacionais da Serra da Capivara e Serra das Confusões, Brasil

O artigo investiga como sociedades pré-históricas brasileiras perceberam e se relacionaram com o meio ambiente a partir da análise da arte rupestre presente nos Parques Nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões, no estado do Piauí. A pesquisa adota a perspectiva da Arqueologia da Paisagem, compreendendo a arte rupestre não apenas como expressão estética, mas como manifestação cultural que materializa a interação ancestral entre os grupos humanos e o bioma em que viviam.
A análise concentra-se principalmente nas representações fitomórficas e zoomórficas, interpretadas como importantes indicadores paleoambientais. A presença de determinadas espécies animais, como o Blastocerus dichotomus (veado-campeiro), sugere que a região apresentava clima mais úmido entre 20 e 25 mil anos atrás, com áreas alagadas e vegetação mais densa, permitindo inferências sobre mudanças climáticas e ambientais ao longo do tempo. Esses registros visuais funcionam, portanto, como fontes para a reconstrução de paisagens passadas e dos modos de vida das populações pré-históricas.
O estudo também dialoga com o debate sobre o povoamento das Américas, destacando a relevância arqueológica do sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, considerado um dos mais antigos registros de presença humana no continente. Além disso, os autores contrastam a epistemologia ocidental com as cosmologias indígenas contemporâneas, ressaltando que, para muitos povos originários, os petróglifos e pinturas rupestres contêm linguagens ocultas, narrativas míticas e memórias ancestrais profundamente conectadas à natureza.
Outro ponto central do trabalho é a compreensão da paisagem como uma construção histórica, social e simbólica, resultado da interação entre seres humanos, ambiente e cultura. A arte rupestre é apresentada como um “arquivo” material e imaterial, capaz de revelar valores, crenças, práticas cotidianas e formas de organização social das populações antigas, ao mesmo tempo em que reforça a importância da preservação do patrimônio arqueológico como elemento fundamental da identidade cultural e da educação ambiental contemporânea.
Os autores concluem que a arte rupestre dos parques analisados constitui um testemunho valioso da relação indissociável entre sociedade e natureza ao longo da história humana. Ao recuperar essas percepções ambientais ancestrais, o estudo contribui para reflexões atuais sobre sustentabilidade, conservação ambiental e valorização do patrimônio cultural, aproximando o conhecimento acadêmico da sociedade e fortalecendo o compromisso com a preservação desses sítios arqueológicos.

JUSTAMAND, M. et al. Percepções ambientais na arte rupestre: Parques Nacionais da Serra da Capivara e Serra das Confusões, Brasil. Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana, v. 23, n. 12, 2025.

Link para artigo completo: https://www.researchgate.net/publication/398345548_Environmental_perceptions_in_rock_art_the_Serra_da_Capivara_and_Serra_das_Confusoes_national_parks_Brazil/

8. As iniciativas do fidalgo esporte em Ilhéus: o remo (1921–1942)

O artigo analisa o processo de introdução, consolidação e declínio do remo na cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, entre os anos de 1921 e 1942, período marcado por intensas transformações urbanas, sociais e econômicas impulsionadas pela prosperidade da lavoura cacaueira. A pesquisa adota uma abordagem histórica e utiliza como principais fontes os periódicos Correio de Ilhéus e Diário da Tarde, veículos diretamente vinculados às elites políticas e econômicas locais, permitindo compreender como o esporte se articulou aos projetos de modernização da cidade.
Os autores demonstram que o remo foi incorporado como símbolo de distinção social, modernidade e refinamento, fortemente associado às elites urbanas que buscavam espelhar Ilhéus em centros hegemônicos como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Nesse contexto, surgiram clubes náuticos e de regatas que organizaram competições, festivais esportivos e eventos sociais, nos quais se destacavam elementos de prestígio, como a presença feminina, música ao vivo, embarcações importadas e rituais festivos que reforçavam hierarquias sociais.
O estudo evidencia que a prática do remo esteve intimamente ligada à configuração geográfica e econômica da cidade. A Baía do Pontal e os rios Itacanoeiro, Cachoeira e Santana, fundamentais para o escoamento do cacau, favoreceram o desenvolvimento da modalidade, que incorporou características regionais, como o uso de canoas monóxilas. Assim, embora dialogasse com padrões globais do esporte moderno, o remo em Ilhéus adquiriu feições próprias, moldadas pelas condições locais.
Apesar do entusiasmo inicial e da criação de diversas agremiações, a pesquisa aponta para a descontinuidade das competições e a instabilidade institucional como fatores centrais para o declínio do remo a partir da década de 1930. A ausência de apoio público sistemático, a dependência das iniciativas da imprensa e das elites, além da falta de ordenamento duradouro, limitaram a expansão da modalidade para além dos grupos privilegiados.
Os autores concluem que o remo desempenhou papel relevante na construção das sociabilidades urbanas e na afirmação de uma modernidade local plural, situada entre influências externas e práticas regionais. Ao analisar o “fidalgo esporte” em Ilhéus, o estudo contribui para ampliar a historiografia do esporte brasileiro ao deslocar o foco dos grandes centros urbanos, evidenciando a importância dos interiores na compreensão das múltiplas formas de modernização, lazer e cultura esportiva no país.

SILVA, Bruna Dantas da; COTES, Marcial. As iniciativas do fidalgo esporte em Ilhéus: o remo (1921–1942). Recorde: Revista de História do Esporte, v. 18, n. 2, p. 1–31, jul./dez. 2025.

Link para artigo completo: https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/view/64895